Brasil perde cerca de 12% da soja produzida no país

Projetos de pesquisadores brasileiros e americanos vão auxiliar produtores na mensuração e prevenção de perdas na colheita, transporte curto, padronização, armazenagem e transporte longo

Estimativas da Aprosoja apontam que o Brasil perde aproximadamente 12,5% da soja produzida no país durante os processos de pré-colheita, colheita, transporte curto, padronização, armazenagem e transporte longo. Considerando as previsões para a safra brasileira, isto representaria cerca de 10 milhões de toneladas de soja. Os dados foram apresentados durante o Workshop de Perdas Pós-Colheita, realizado nos dias 24 e 25 de outubro, na Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop. O evento reuniu trabalhos de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos, que estudam os diversos tipos de perdas, tanto físicas quanto qualitativas e econômicas, ocorridas em todo o processo da cadeia da soja.

Deste percentual que o país perde, cerca de 4% fica na própria lavoura, segundo informações coletadas pelo Rally da Safra, da empresa Agroconsult. O diretor executivo da Aprosoja, Marcelo Duarte Monteiro, considera a perda significativa. “Se usarmos uma média de 50 sacas de produtividade por hectare este percentual de 4% equivale a mais de duas sacas que o produtor perde no processo da colheita”, destacou Duarte Monteiro.

As outras perdas são de 1% no processo de pré-colheita e mais 1% somando o transporte curto, a armazenagem e o transporte longo. Os outros 6% não são perdas físicas mas econômicas, decorrentes do atual modelo de classificação de grãos e descontos praticados pelas empresas compradoras de soja.

O Workshop reuniu diversos trabalhos realizados por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Embrapa, Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e Instituto ADM de Prevenção de Perdas Pós-Colheita, também sediado em Illinois.

Segundo o diretor da Aprosoja, o objetivo foi reunir os pesquisadores para que eles trocassem ideias e realizassem um intercâmbio de informações. “A partir desta sinergia, a Aprosoja espera que os pesquisadores atuem em conjunto, potencializando os trabalhos e auxiliando o produtor na prevenção das perdas na produção, armazenagem e transporte de soja e também do milho. Perda zero a gente sabe que é difícil, mas com certeza é possível minimizar estes números”, afirmou Marcelo Duarte Monteiro.

O diretor do Instituto ADM de Prevenção de Perdas Pós-Colheita, Steve Sonka, alertou que 1/3 da produção agrícola do mundo é desperdiçada e não chega aos consumidores finais. Com o crescimento populacional a FAO – Organização da ONU para Agricultura e Alimentação – estima que em 2050 a demanda global por alimentos irá crescer cerca de 70%, pois teremos mais dois bilhões de pessoas no mundo consumindo alimentos. Além de trabalhar na prevenção das perdas, Sonka destacou ainda que é preciso baratear o preço para que esta população tenha acesso à alimentação de qualidade.

Neste sentido, os esforços para trabalhar a prevenção das perdas estão partindo de diversas instituições, como o trabalho da professora Zulema Figueiredo, do campus da Unemat de Cáceres, que apresentou durante o Workshop os resultados um trabalho de mensuração de perdas na colheita, com ênfase na análise das máquinas que são utilizadas no campo. A pesquisa foi realizada em seis propriedades, durante a colheita do milho segunda safra, e foram observados diversos aspectos, entre eles regulagem das máquinas, idade da máquina, velocidade no deslocamento durante a colheita, as perdas que ocorrem na plataforma de corte, os sistemas internos da máquina. “A metodologia que nós usamos pode ser indicada para o fabricante no processo de regulagem das máquinas. Acreditamos que as ações de extensão realizadas por instituições como o Senar, por exemplo, com cursos de capacitação para operadores, poderão ajudar no sentido de prevenir as perdas ocorridas em decorrência da má utilização das máquinas”, explicou Zulema Figueiredo.

A produtora rural Roseli Giachini, do município de Cláudia, avaliou que muitos produtores não conseguem quantificar quanto se perde nos processos de colheita, armazenagem e transporte. “A pesquisa é fundamental neste sentido, pois na minha propriedade eu sabia que tinha perda, mas a partir do trabalho da professora Zulema nós pudemos quantificar isto”, destacou Giachini. No caso da produtora, as perdas estavam ocorrendo na plataforma de corte da máquina. “A máquina não conseguia colher direito porque houve erros no processo de plantio. Quando você compara um plantio realizado com GPS em relação a um realizado com marcador de linha você observa o quanto se pode reduzir as perdas”, enalteceu Giachini.

O professor Carlos Caneppele, da UFMT, pesquisou as perdas que ocorrem no transporte curto, que é aquele realizado da lavoura até a unidade armazenadora, que pode estar dentro da própria propriedade ou fora, no caso dos produtores que não possuem armazém. Foram pesquisadas sete propriedades na região de Sinop e Cláudia. “A má conservação das estradas e a situação dos caminhões que são usados para fazer este transporte influenciaram bastante nas perdas observadas. Além disto, a forma de descarregar o produto e a falta de limpeza dos caminhões no retorno para a propriedade também acarretam em perdas para o produtor. É preciso um investimento na melhoria dos caminhões utilizados e também na conservação destas estradas”, apresentou Caneppele.

Tanto o trabalho da professora Zulema Figueiredo quanto do professor Carlos Caneppele contaram com o apoio da Aprosoja.

Já no quesito armazenagem, o trabalho da professora Roberta Nogueira, do campus da UFMT em Sinop, que conta com a parceria de outras instituições, inclusive do Instituto ADM, avaliou a utilização de sensores para medir temperatura, umidade e fluxo de ar. Estes sensores poderão ser instalados dentro das unidades armazenadoras estáticas ou também nos caminhões que fazem o transporte de grãos ou de sementes, por exemplo. “Nos sistemas atuais a gente só consegue obter dados de temperatura. E para fazer a predição de perdas e a qualidade do produto, no mínimo, umidade relativa e temperatura devem ser aferidos. O desenvolvimento destes sensores é um passo importante para que possamos saber como de fato ocorre o armazenamento de grãos no nosso estado”, destacou Roberta Nogueira.

O armazenamento em silo bag também foi outro item do trabalho. A capacidade estática atual de Mato Grosso não suporta a produção de grãos do estado e quem sofre com isto são os produtores. “Nosso trabalho avaliou a viabilidade econômica deste sistema, muito utilizado em outros países, para o armazenamento de milho, comparando os custos em relação ao armazenamento convencional”, explicou Roberta Nogueira. Os pesquisadores armazenaram o milho durante três meses no silo bag, em condições reais, ou seja, no campo, e a cada 20 dias eram coletadas amostras, analisadas em laboratório. “A conclusão do trabalho foi que a qualidade do material armazenado foi mantida e os custos em comparação com o sistema tradicional também compensaram”, destacou a professora.

O chefe de Pesquisa da Embrapa Agrossilvipastoril, Auster Faria, que conduziu todas as apresentações durante o Workshop, destacou que ao final os pesquisadores definiram grupos de trabalho, com coordenadores e propostas para a continuidade dos projetos, divididos em quatro grandes áreas de atuação: perdas na colheita, no transporte, na armazenagem e uma última que serão políticas públicas, a fim de se estudar alternativas e propostas de leis, comissões e outros aparatos que complementem os projetos de prevenção e mensuração de perdas na produção agrícola.

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