CANARANA: Doença transformou casal em coletores de sementes

Depois de enfrentarem  doenças e se transformarem em coletores de sementes, Paulo e Herta agora passam por outro desafio: a diminuição da área de coleta e da produção de sementes florestais

 

A HISTÓRIA: COMO TUDO COMEÇOU

Paulo Roberto Ehrleich tem 54 anos e sofre de um problema no coração. Sua esposa, Herta Ehrleich, 55 anos, tem leucemia. Ambos tiveram que parar de trabalhar em suas atividades. Paulo era mecânico e Herta, formada em Letras, era professora. Eles moram em Canarana/MT há 32 anos.

Em 2006, para conseguir pagar exames e comprar remédios, o casal teve por solução começar a coletar pequi. Vendiam em feiras na cidade de Goiânia/GO. Com os caroços que não podiam ser vendidos, tiveram a ideia de fazer mudas de pequi.

O local escolhido foi o quintal da casa, com cerca de 600 metros quadrados, localizada na rua Santa Rosa, bairro Nova Canarana. Com o tempo, os compradores de mudas de pequi, i, começaram a perguntar se eles não tinham também de outras espécies.

Paulo e Herta tiveram a ideia de produzir mudas de outras árvores nativas da região e foi assim que começaram  um viveiro de mudas. Este viveiro hoje tem mais de 40 mil mudas de mais de 20 espécies nativas da região Xingu/Araguaia.

Em 2007, foi criada a Associação Rede de Sementes do Xingu (RSX), com sede em Canarana, para organizar a coleta, beneficiamento e comercialização de sementes florestais utilizadas em recuperação de áreas degradadas pelo sistema plantio direto.

Como já eram coletores de sementes para a produção de mudas, Paulo e Herta se integraram a um grupo e começaram a comercializar o excedente com a Rede de Sementes do Xingu, que conta atualmente com mais de 400 coletores espalhados pela região.

“Quando começamos a coletar os meus pais moravam junto com nós. A gente brincava que eram quatro inválidos e eles também nos acompanhavam na coleta”, contou Herta, que hoje fica em casa e cuida do beneficiamento, não saindo mais a campo por conta da leucemia.

DIMINUIÇÃO DA ÁREA E QUEDA NA PRODUÇÃO

Apesar de enfrentaram problemas de saúde, o que tem preocupado hoje o casal são as dificuldades de coleta. “Neste ano atingimos apenas 40% da meta”, explicou Paulo, para relatar o que em sua opinião são as causas dessa diminuição.

Segundo ele, o aumento dos incêndios na região, falta de polinização das árvores, aumento da temperatura e diminuição das áreas de coleta são alguns dos fatores que tem diminuído a produção e a coleta de sementes.

Paulo explicou que a atividade que predominava no Araguaia/Xingu era a pecuária. Com a conversão das pastagens em lavouras, muitas árvores produtoras de sementes que ficavam no meio das pastagens foram derrubadas.

Já os incêndios estariam destruindo, entre outras, as árvores que ficam na beira das rodovias, também visitada pelos coletores. Paulo relatou que a área de coleta diminuiu mais de 60% desde 2006, o que tem dificultado o cumprimento das metas.

O provável aumento da temperatura também estaria interferido na produção. “A semente de jatobá chega a sofrer um pré-cozimento dentro da vagem, inutilizando a mesma para a produção de mudas”, disse Paulo.

Parte das sementes de jatobá coletadas por eles não vira muda nem é vendida para a RSX, mas se torna em farinha, rica em cálcio, que é doada para pessoas da comunidade, principalmente idosos, que sofrem de osteoporose.

Por fim, o coletor relaciona a queda da produção com a diminuição das colmeias de abelhas, afetadas pelo uso de inseticidas nas lavouras. As abelhas têm a função de polinizar as flores das árvores..

 

ALTERNATIVAS PARA MANTER A COLETA

Devido à diminuição da área de coleta e tendo que ir cada vez mais longe, aumentando os gastos, Paulo e Herta tem criado meios para permanecerem na atividade. Uma delas é a parceria com clientes e amigos que trocam sementes por mudas.

Valdir Dessbessel, carpinteiro e artesão em Canarana, também integra o grupo do casal. Ele é irmão de Herta. Quando vai para o meio do mato para recolher troncos de árvores caídas para o uso em sua marcenaria, já aproveita para apanhar sementes.

Outra solução encontrada para continuar a coletar sementes, é a produção própria. Com o dinheiro arrecadado com a venda de mudas, em 2.007 Paulo e Herta compraram uma chácara de 8 hectares a 12 km de Canarana.

Várias espécies já foram plantadas nessa área e neste ano a previsão é que os pés de pequi já comecem a produzir seus primeiros frutos. Em breve, boa parte da coleta poderá ser feita em árvores nativas plantadas nesta chácara.

jopioneiro

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