Copa em Cuiabá é críticada por agência internacional

Reportagem da Associated Press diz que torneio no Brasil “desencadeia” raiva

LISLAINE DOS ANJOS/Mídia News

Depois da revista francesa So Foot publicar uma matéria, no início do mês, criticando a preparação do Brasil para a Copa do Mundo, foi a vez da agência de notícias Associated Press produzir uma reportagem destacando as inúmeras obras inacabadas nas 12 cidades-sedes – principalmente em Cuiabá.

Além de destacar os altos investimentos que as obras de infraestrutura demandaram aos cofres públicos, a reportagem ressalta que grande parte das promessas não foram cumpridas e que boa parte dos projetos não serão concluídos até o Mundial.

“Pedestres na ponta dos pés atravessam uma estrada marcada com poças profundas, montes de cascalho e um sinal de desvio. Os detritos nesta pequena cidade no oeste do Brasil faz parte da bagunça em grande escala de promessas não cumpridas . Projetos de infraestrutura inacabados deveriam criar uma nova metrópole , com estradas modernas e um sistema ligeiro sobre trilhos para levar passageiros ao centro da cidade a partir de um aeroporto reluzente”, diz trecho da reportagem.

Ilustrada, em sua grande parte, por imagens de obras atrasadas da Capital – como da reforma do Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, e da Trincheira da Jurumirim, em Cuiabá –, a matéria ressalta a pouca evolução das obras em contrates com os investimentos feitos, bem como os prejuízos sofridos por comerciantes afetados diretamente pelas construções em andamento.

“[…] não há chances deles finalizarem grande parte dos demais projetos. Será uma grande humilhação para nós”

“[A Arena Pantanal] será pobremente concluída e no último minuto, mas ao menos será concluída. Mas não há chances deles finalizarem grande parte dos demais projetos. Será uma grande humilhação para nós”, disse Atilio Martinelli à reportagem, dono de uma serralheria localizada nas proximidades do estádio.

A matéria cita como o conjunto de obras inacabadas, no início, eram vistas como uma chance de construção de uma grande e moderna metrópole, mas que isso não deve acontecer. A reportagem também tece críticas ao valor já consumido pelas obras do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) – sistema orçado em R$ 1,477 bilhão – mas que pouco ainda foi feito.

“A jóia da coroa em Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso, era para ser 13 milhas de sistema de comboio ligeiro de $ 670.000.000 [em dólares] para ligar o aeroporto ao centro da cidade. A construção para o projeto tem dilacerado a cidade de 600 mil habitantes, mas os moradores dizem que pouco está sendo feito. Trincheiras de lama surgiram onde os trilhos deveriam ser instalados”, diz outro trecho da reportagem.

A matéria ainda conta com críticas feitas pelo promotor de Justiça Clóvis de Almeida Júnior, do Ministério Público Estadual (MPE), sobre a falta de tempo para construção do VLT, que inclusive culminou em ação por parte do órgão.

“Sempre pareceu óbvio que o cronograma não poderia ser cumprido como prometido. E a principal razão para isso é a falta de planejamento, em todos os aspectos. O resultado é essa situação atual, que muitos qualificam como bagunça. Mas eu acho que poderiam ser usadas palavras mais fortes para descrevê-la”, disse o promotor.

 

“O resultado é essa situação atual, que muitos qualificam como bagunça. Mas eu acho que poderiam ser usadas palavras mais fortes para descrevê-la”

A falta de tempo para conclusão dos projetos também foi pontuada pelo advogado Bruno Boaventura, da Ong Moral, que diz que os governantes “mentiram quando prometeram finalizar o VLT antes da Copa, quando qualquer engenheiro sério poderia ver que não havia tempo hábil”.

“Eles mentiram sobre o real custo do sistema, que foi aditado e eu acho que ainda ficará pior. Agora, eles começaram a mentir sobre terminar 100% da obra até dezembro”, disse.

Obras inacabadas

A obra atrasada da trincheira da Jurumirim – a  “trincheirona” – também foi dissecada na matéria, citando os prejuízos causados aos comerciantes locais e o bloqueio causado no tráfego da Avenida Miguel Sutil.

“Outra ferida sangrando é conhecido localmente como “trincheirona”, um projeto para redirecionar uma das três principais artérias de tráfego de Cuiabá. A trincheira passa dentro de algumas centenas de metros do novo estádio, e vai dificultar o tráfego de chegar ao estádio – não ajudá-lo. Proprietários de pequenas empresas na área dizem que foi dito há dois anos, quando o trabalho começou, que ele seria feito em poucos meses. Eles dizem que perderam dinheiro, desde então, e agora não podem obter uma resposta direta a respeito de quando o trabalho será concluído”, diz trecho da reportagem.

As obras de reforma e ampliação do aeroporto em atraso, bem como a dificuldade de acesso ao terminal – que deveria ser o cartão de visita da cidade – também foram criticados.

“Uma expansão do aeroporto definido para cumprimentar os fãs foi comprometido por um início tardio e burocracia, e os moradores temem que ele também não vai estar pronto para as multidões que em breve descem para os jogos, incluindo um confronto junho 13 entre Chile e Austrália. Desvios de pista simples esticar por vários quilômetros para chegar ao minúsculo terminal. Os passageiros de saída em uma nuvem de poeira gerada por retroescavadeiras. Táxis rodam através de um labirinto acidentado de cones de plástico, destinados a proteger os operários. Um galpão de metal gigante abrange parte do novo terminal, formado por vigas e vigas”, diz outro trecho da matéria.

População esquecida

A reportagem também cita a fala de um taxista cuiabano, que se disse “envergonhado por ter o repórter na cidade” e as declarações de uma empregada doméstica, Evone Pereira Barbosa, 46, que aguardava de pé – junto a outras 30 pessoas – atendimento na Policlínica do Verdão.

A matéria explica que o modelo da saúde pública no Brasil segue o cenário encontrado na Capital, o que alimenta os protestos por parte da população que não aceita os altos investimentos do Governo Federal para a realização da Copa do Mundo e cobra hospitais “padrão Fifa”, em referência aos 12 estádios construídos para o torneio.

“As pessoas comuns foram esquecidas. Eles investiram muito na Copa do Mundo e esqueceram da população”

Segundo a reportagem, a doméstica disse acreditar que metade da população cuiabana é contra a realização da Copa no Brasil – o que é confirmado por uma pesquisa feita pela Datafolha – e desabafa:

“As pessoas comuns foram esquecidas. Eles investiram muito na Copa do Mundo e esqueceram da população”.

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