Cuiabá entra na rota do turismo sexual da Copa; polícia investiga formação de quadrilhas

A aproximação da Copa do Mundo colocou em alerta a segurança pública em Cuiabá e Várzea Grande. Com as duas cidades na rota de aliciadores de menores e adolescentes que pretendem faturar com o turismo sexual durante a Copa, a Polícia Civil deu início à investigação de uma suposta rede que estaria percorrendo a periferia da cidade, oferecendo a jovens salários tido como irrecusáveis para ficar à disposição de turistas que virão a Cuiabá para assistir aos quatro jogos do Mundial, entre 10 e 25 de junho.

A Polícia Civil informou nesta segunda-feira (28), através de sua assessoria de imprensa, que promotores de festas estão sendo investigados. Ainda não há provas de crime.

Há suspeitas de que pelo menos um grupo estaria recrutando crianças e adolescentes, oferecendo ganhos que oscilam entre R$ 10 mil e R$ 15 mil, para divertir os turistas.

O coordenador da Comissão Estadual de Segurança de Grandes Eventos, coronel Joelson Sampaio, informou que ainda não foi adotada uma ação específica para combater a prostituição infanto-juvenil durante a Copa, mesmo Cuiabá sendo a cidade uma das 12 sedes do evento.

A Polícia Civil suspeita que duas quadrilhas estariam trabalhando para recrutar menores na Baixada Cuiabana. Tratam-se de grupos clandestinos com envolvimento de pessoas adultas que estariam atraindo vítimas para o álcool e a prostituição.

Estes grupos estariam promovendo festas teens e ‘cadastrando’ garotas para programas com turistas. Algumas estariam sendo levadas para outro estado, no entanto, essa informação ainda não foi confirmada. As investigações focam esses grupos e festas, com o propósito de acabar com a formação de uma suposta rede.

Em maio, instituições ligadas à proteção de crianças e adolescentes se reunirão com setores responsáveis pela segurança pública na Secretaria Extraordinária da Copa (Secopa) para dar enfrentamento ao problema. Será discutida uma integração de conselhos tutelares, Polícia Civil e Polícia Rodoviária Federal visando um trabalho de prevenção da exploração sexual infantil durante a Copa do Mundo. A PRF informou que detectou inúmeros pontos vulneráveis para exploração sexual nos arredores de Cuiabá e Várzea Grande.

Problema nacional

A preocupação de instituições de combate à exploração sexual de menores e adolescentes é crescente, diante dos números da Copa do Mundo no Brasil. Nada menos do que 600 mil estrangeiros deverão desembarcar no Brasil, para se somar aos cerca de 3 milhões de brasileiros que estarão circulando pelo país nas 12 cidades-sede do Mundial. Se por um lado o evento promete aquecer a economia e mudar a rotina do país, por outro lado, deixarão crianças e adolescentes mais vulneráveis à exploração sexual, diante de ofertas de dinheiro fácil.

A situação requer muita atenção dos órgãos de segurança. Registros internacionais indicam que o aumento da exploração sexual de crianças e adolescentes antes e durante os chamados megaeventos é um fato. Na África do Sul estima-se que os casos subiram 30% em função do Mundial.

Assim como em Cuiabá, nas outras sedes, já há sinais da ação de aliciadores de menores que atuam especialmente no sentido de tirar proveito da Copa. Em São Paulo, o Ministério Público estadual investiga a atuação de aliciadores de crianças e adolescentes na região da Arena Corinthians, estádio que ficou mais conhecido como Itaquerão e que servirá de palco à abertura do Mundial em 12 de junho.

Um relatório elaborado pela Polícia Rodoviária Federal apontou a existência de 1,9 mil pontos vulneráveis para exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas que ligam as 12 cidades-sede da Copa. Esse levantamento vem sendo feito desde o ano passado.

A relatora da CPI da Exploração Sexual Infantil, deputada federal Liliam Sá (PR-RJ) esteve, no ano passado, em algumas das cidades-sede da Copa. Em São Paulo, ao redor do Itaquerão – exatamente onde o MP atua –, viu crianças de 10, 11 e 12 anos sendo exploradas sexualmente. Em Brasília, encontrou meninos de 10 a 16 perto das rodoviárias. Na cidade de São Paulo, o comitê local foi criado somente em 2013 e seu plano de enfrentamento ainda não está pronto.

Enquanto de um lado esse cenário ganha força, as redes de combate à exploração sexual infanto-juvenil durante a Copa ainda não estão organizadas, faltando apenas 44 dias para a Copa do Mundo. A promotora de Defesa dos Direitos Difusos e Coletivos na Infância e Juventude de São Paulo, Fabiola Moran Faloppa, lamenta o atraso. “As reuniões do comitês estão acontecendo. O trabalho está sendo desenvolvido, mas já deveria estar pronto. Era hora de a gente estar testando a rede, e não estamos”. Segundo ela, a rede do governo ‘é frágil’.

Denise Cesario, gerente executiva de Programas e Projetos da Fundação Abrinq, E destacou a falta de capacitação e estrutura. “Os conselhos tutelares existentes são insuficientes e os técnicos não estão preparados para atender a casos de exploração sexual infantil”, disse. Darwin Júnior /Olhar Direto

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