E agora José?

E agora José?  O local? Canarana/MT. Pitoresca cidade do interior, com um avião exposto na praça e uma cuia. Nos mutirões somos consultados em ações, na grande maioria de família ou registro civil, ocasião com muita procura pela segunda via da certidão de nascimento, que, quando declaradamente pobre, deve ser disponibilizada aos cidadãos gratuitamente.

Embaixo de uma tenda de lona improvisada, o calor como comumente aqui era escaldante. Fila relativamente grande, o usual. Eu ia atendendo.
Ele veio com chapéu de palha, roupa surrada, direto da lida; aparentava bem mais que seus cinquenta anos. Sentou-se e sorriu abertamente, mostrando-me ser desprovido dos dentes da frente (cinco, para ser mais exata; mas quem está contando?!), porém não de alegria!
– Bom dia! – aperto-lhe a mão.
– Dia, “dotora”! – diz.
– Qual o nome do senhor? – pergunto, já preenchendo a ficha de atendimento.
– José! – diz.
– Ganha quanto, Seu José? – a pergunta pode parecer constrangedora, mas necessária, porque a Defensoria Pública atua garantindo o acesso à Justiça aos hipossuficientes.

– Ganho nada não. – diz.

 – Seu José, todo mundo ganha algo, senão ia viver como? Quanto o senhor tira por mês? – digo.

– “Uns” meio salário. – disse.

– E o que o senhor deseja aqui hoje? – indago.

– “Tirá” segunda via do registro. “Pra podê registrá os fio, por “prá estudá e ganhá” bolsa do governo. – diz.

– Quantos filhos o senhor tem, Seu José? – indago.

– Vixe! “Péra dotora”, que são muitos! Eram nove, mas três “num vingo” ou já “morreu”. Conta aí: José João, José Pedro, José Francisco…

– Mas é tudo José, seu José? Como é que o senhor faz para chamá-los, sendo tudo José?

– Ué, “dotora”, de José! Chamo tudo de José… (Fazia sentido…)

 Foi o que disse a ele: – Faz sentido, Seu José. Se se chamam José, melhor chama-los de José, não é? – digo, num meio sorriso sem graça.

– Isso, “dotora”! Hoje tem quatro José vivinhos. Uma é Josefa Francisca. Outra é Josefa Maria.

– Já deu seis, Seu José. – continuo, e ainda irresignada digo: – Seu José, depois de ter seu registro e for registra-los, não é melhor mudar o nome? Ao invés de José na frente, que tal inverter: Francisco José, Pedro José,

João José? Assim fica mais fácil, o senhor não acha? (Não é que eu estava querendo dar palpite em nome dos filhos dos outros! A intenção era ajudar…)

– Mais fácil não fica não, “dotora”. Do jeito que “tá” é só “chamá José” e “tudo” eles “responde”!

– Certo, Seu José… – digo, e numa já aceitação tácita, mudo o rumo da entrevista. – E o que o senhor faz para viver?

Ele, na forma rápida como falava, já meio inquieto na cadeira: – Eu? “Tocá” gado.

Pare agora! Pause. Releia. Ou melhor: leia, mas bem rápido, como entendi: “eu-tô-ca-ga-do!”

Emudeci. E agora? – pensei. Nestes momentos queremos que o chão se abra para num buraco desaparecer, pareceu-me ter feito um silêncio gritante neste exato instante, onde só ele pudesse fazer-se ouvido.

Olhei para os lados, constrangida, procurando ajudar sem embaraça-lo. Falo baixo: – Seu José, o senhor pode ir ao banheiro e depois voltar aqui. Não precisa pegar a fila mais não. – sussurrava, sentindo pena por ele, entendendo-me solidária com a vergonha que ele deveria sentir.

 Ele: – “Qué” que “vô fazê ” no banheiro, “dotora”?

Eu: – Mas Seu José, o senhor não disse que…

Ele interrompe numa sonora gargalhada, onde contemplo todo o céu de sua boca, até o limiar das amídalas! Sôfrego e rindo, porém agora pausadamente, diz: – Não, “dotora”. Eu “TÓ-CO” gado!

E repetia a todos: – A “dotora” achou que eu…

Ria até! E o riso se espalhava…

Como o chão não se abriu, eu continuava ali. Seu José também.

Obviamente mudo o foco: – Continuemos Seu José. O senhor sabe qual estado e cartório foi registrado? Oficio requisitando a segunda via e quando a receber envio ao senhor.
Ele: – Sei não, “dotora”. Mas sei que foi em algum lugar…

Digo: – E agora, seu José?

Ele: – É… E agora, José?

Karol Rotini é defensora pública. Email: [email protected] – via cenario mt

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