Falso médico aplica golpes em famílias de pessoas internadas em MT

Um método de golpe que já foi aplicado várias vezes nos hospitais particulares de Cuiabá voltou a ser registrado nesta semana pela Polícia Judiciária Civil. A ação dos golpistas sempre é a mesma: ligam para o telefone de pessoas que têm algum parente internado, falam os sintomas e os problemas enfrentados recentemente e pedem que as vítimas realizem um depósito para pagar exames e medicações.

O problema é que o falso médico nunca aparece nos horários agendados e muito menos para fazer a bateria de sofisticados exames que, conforme disse ao telefone, os pacientes precisam com urgência, sob risco de morte.

Divino veio com a esposa de Rondônia, no início de janeiro, para tratá-la em Cuiabá. A mulher ficou em outro hospital após ganhar a filha, mas apresentou pressão alta, falta de ar e teve parada cardiorrespiratória.

“Eu era motorista e agora estou desempregado. Peguei R$ 1500 emprestado para fazer o depósito porque ele disse que era coisa de vida ou morte. Fiquei apreensivo. Como sou uma pessoa simples, pensei apenas em resolver a situação”, lamentou.

Durante a ligação, Eduardo perguntou a Divino se ele conhecia quem estava com a paciente Lidiane. No telefone, ele contou que era esposo da paciente e perguntou se ela tinha passado mal.

“Ele me disse que ela tinha tido alergia por causa da medicação e precisava fazer novos exames para saber qual a gravidade. E realmente ela ficou uns dias com o corpo todo pipocado. Fiquei com medo e acabei caindo no golpe”, disse.

Como Divino não é daqui, ele somente registrou o boletim de ocorrência, mas foi informado que precisa procurar a delegacia especializada nesses casos. Por não conhecer a cidade e estar passando dificuldades financeiras, ele ainda não conseguiu dar andamento no caso.

“A única coisa que o banco me falou era que iria cancelar a conta, porque, como o dinheiro já havia sido sacado, o banco não tem como fazer a devolução”.

Para conseguir ficar na Capital, os familiares fazem um bazar em Rondônia para pagar o aluguel da casa onde Divino fica e ajudar na alimentação.

“Estou me virando como posso, porque a situação é indefinida. Mas, vou procurar meus direitos porque no contrato não fala que o hospital não passa informação por telefone”, concluiu.

‘DOUTOR EDUARDO’

Outra vítima do golpista é a empresária Ana Paula. Sua sogra está internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital São Matheus há pelo menos 15 dias, devido a uma infecção.

Na segunda-feira (28), um telefonou para Ana Paula, identificando-se como doutor Eduardo, e disse que a sogra da empresária precisava com urgência de uns exames de última geração, porque havia sido constatado que ela estava com leucemia. O falso médico ainda sabia todo o histórico da paciente.

Para o exame, Eduardo pediu que Ana Paula depositasse R$ 1.700 na conta do laboratório, porque só assim a paciente teria liberação para fazer os procedimentos necessários.

“Ele falou com uma voz muito calma e afirmou que eu poderia ficar tranquila, porque no prazo de sete dias, a Unimed iria me devolver o valor que foi depositado. Fiquei bastante segura e liguei para meu esposo, porque afinal é a mãe dele que está lá e, logo em seguida, ele fez o depósito”, contou Ana Paula.

Depois de alguns minutos, o falso médico ligou novamente para a empresária e perguntou se o depósito já havia sido realizado porque ele precisava autorizar os exames.

“Falei que estava tudo certo e acreditei que estava tudo dentro dos conformes, porque como é que eu não iria acreditar em um cara desse? Ele sabia de tudo”, afirmou indignada.

No mesmo dia, quando a empresária almoçava com a família antes de ir ao hospital para realizar os exames, Eduardo voltou a ligar e disse que ela precisava fazer um novo depósito no valor de R$ 1.250, porque o hospital tinha se esquecido de passar o valor da bolsa de sangue.

“Achei estranho os valores que ele cobrava porque ele sempre afirmava que os exames eram de última geração. Mas pensei ‘a Unimed vai pagar a metade né’, porque você nunca pensa na maldade do outro. Nisso, meu marido se estressou e disse que isso é golpe”, afirmou Ana Paula.

Após a ligação, Ana Paula foi ao hospital verificar a veracidade das informações. Lá, encontrou outras quatro pessoas que já tinham depositado valores até maiores para a mesma pessoa. Porém, nenhum médico aguardava por essas famílias.

“Eu já sabia que há muito tempo atrás tinha esses golpes, mas as ligações eram realizadas dentro do quarto. Fiz um boletim de ocorrência na delegacia e fui até a direção reclamar, porque o hospital informa quando alguém vai para UTI e necessita de outros cuidados, mas uma pessoa me informou que a unidade médica nunca pede dinheiro”, falou.

Quando Ana Paula chegou na delegacia, o médico ligava novamente para confirmar se o outro depósito havia sido efetuado.

“Iria depositar sem desconfiar de golpe. Estava nervosa e pensando na minha sogra. Queria resolver os problemas, mas o hospital disse que não conhece esse médico e que isso pode ser um hacker. Acredito que ele não é daqui, porque logo depois do depósito ele sacou o dinheiro em outro estado”, desabafou.

OUTRO LADO

O Sindicato dos Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Mato Grosso (Sindessmat) emitiu nota alertando a população sobre o golpe. A orientação é não depositar ou transferir dinheiro pedido por qualquer pessoa ao telefone, pois as cobranças são feitas na unidade médica.

“Os hospitais esclarecem que em hipótese alguma a cobrança pelos serviços prestados, inclusive para atendimentos particulares, é feita por telefone ou ainda por depósito ou transferência. Em caso de dúvidas, o Sindessmat pede que as pessoas procurem a administração do hospital em que o paciente esteja internado, antes de fazer qualquer depósito ou transferência”, diz trecho da nota.

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