Globo Rural em Canarana

Chuva em Goiânia. Senhor La Niña realmente resolveu dar suas caras. A capital mais seca que conheci nas idas e vindas do agro amanheceu molhada de tudo, e o taxista que nos levou para o hangar anexo ao Aeroporto Santa Genoveva, onde estava a aeronave da Ceagro, disse que todo dia é a mesma coisa, e assim será, até março.

Não, não estava calor não, mas eu preferia que estivesse um sol de rachar, porque tempo fechado já indicava um voo bastante “chacoalhante”. Fazer o quê? Força, afinal o Vale do Araguaia estava bem longe ainda e, de carro, levaríamos umas 10 horas pra chegar! O tempo só abriu quando estávamos chegando ao Vale. O que vimos foi uma imensidão de lavouras de soja, uniformes, e muito verdes. Na região, os produtores estão apenas começando a colheita e eles estimam que nem 20% da safra de verão foi colhida.

Tentei tirar uma foto da janelinha da aeronave com o celular, não ficou das melhores, mas dá pra ter uma idéia de como é a paisagem por aqui: um tapetão uniforme de soja e muitas ilhas de mata preservada. Como um funcionário da Ceagro falou, “é uma onça pintada”.

Pousamos em Querência, cidade cujo nome já diz muita coisa sobre sua história, foi colonizada por gaúchos na década de 1980 (no caminho do aeroporto para o centro da cidade existe até um Centro de Tradições Gaúchas). A fundação é do ano de 1985, mas como se diz por aí, o bicho começou a pegar mesmo na cidade entre os anos de 1986 e 1987, auge do movimento migratório. Cerca de 350 famílias formaram o Projeto Querência, lotearam uma área rural e a comunidade passou a distrito de Canarana e, depois,a município. A cidade é conhecida pela alcunha de Princesa do Vale do Araguaia.

Segundo o presidente do sindicato rural local, Gilmar Dellösbel, a cidade tem atualmente 260 mil hectares plantados com soja na safra verão, e terá em torno de 55 mil hectares plantados com milho de safrinha, mas existem 150 mil hectares passíveis paralavouras de soja, as pastagens degradadas.

Dellöesbel diz que alguns pecuaristas ainda tentam recuperar estes solos da forma mais tradicional – calcareando, adubando – mas o sistema de consórcio experimentado por alguns produtores de grãos que arrendaram ou compraram as terras estão mostrando que recuperar estas áreas com a lavoura é mais rentável. Aqui, o sistema adotado é o de consórcio entre soja e pecuária.

Na região também estão crescendo as áreas de reflorestamento, com seringueiras e pupunha. “Principalmente nas pequenas propriedades, mas há grandes produtores apostando neste setor”, diz Dellösbel. Ele estima que existam atualmente no município cerca de 1,7 mil hectares de florestas plantadas. Um dos produtores de grãos que está apostando neste setor é o senador Blairo Maggi.

Mas o grande orgulho do agro querenciano é o fato de o município ter deixado de fazer parte da Lista Negra do Meio Ambiente em 2011. Querência é a segunda cidade brasileira que saiu da lista dos desmatadores do Bioma Amazônico. A primeira foi Paragominas, no Pará.

Nos anos 2000, a área desmatada na cidade era de 477,1 km². Hoje, existem 21,4 km² e 84,2% da cidade está cadastrada no CAR, que é o Cadastro Ambiental Rural da Secretaria de Estado de Meio Ambiente. Quem forneceu estes dados foi o Conselho de Meio Ambiente de Querência (Condema). E, de acordo com o advogado do sindicato e membro do Condema, Marcelo da Cunha Marinho, esta área se deve aos assentamentos, que necessariamente precisam desta área para produzir e garantir a posse da terra.

Em todo o Brasil, a Lista Negra ainda tem 44 cidades desmatadoras. Em Mato Grosso, são 19: Confresa, Feliz Natal, Gaúcha do Norte, Nova Ubiratã, Marcelândia, Peixoto de Azevedo, Vila Rica e São Felix do Xingu. Se tudo o que falam desta região for verdade (e isso vamos saber ao final do trecho Mato Grosso da Expedição da Safra/Gazeta do Povo), as cidade de Gaúcha do Norte e São Felix do Xingu devem ser as próximas a saírem da lista, já que elas estão na boca do povo aqui, pois os produtores estão investindo muito em recuperação de pastagens com o uso da lavoura de grãos nestas regiões.

De Querência, partimos para Canarana, onde vamos descansar, para nesta sexta-feira (28/1) passar por um dia de campo que faz parte da programação do Rally Ceagro, do Grupo Los Grobo. A programação inclui palestra da Vanessa Nardy, da PWC, que está conosco desde Goiânia, visita em seis fazendas, almoço (aeeeee, churrascão gaúcho) e uma penca de informações técnicas. Obviamente, uma outra penca de perguntas, cujas respostas eu vim procurar. Até!

Globorural

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