Índios: “Nossa força é o papel”, diz cacique

Confiantes na decisão da Justiça, índios aguardam a desintrusão em sua aldeia em estado de alerta, após ameaças

Guerreiros de prontidão na porteira e um número incerto de outros, espalhados por locais estratégicos da área. Controle rigoroso da entrada de estranhos e limitação de saída de índios.
Reunidos na única aldeia de Marãiwatsede, os xavantes acompanham o desenrolar dos últimos acontecimentos com expectativa otimista, mas também redobrada cautela.
Damião Paridzané, o cacique de 59 anos que lidera o grupo de cerca de 700 integrantes da etnia, diz que as notícias sobre a iminente desintrusão reavivaram estratégias de intimidação que ele atribui ao que chama de “grandes invasores”.
Ameaças de morte, segundo ele, chegam por meio de recados a terceiros ou por ligações anônimas ao escritório da Funai em Ribeirão Cascalheira. Uma área de pastagem da aldeia, à beira da BR-158, foi incendiada e duas cabeças de gado morreram.
“Eles estão pressionando, provocando, queimando pastos, queimando gado nosso. Esse fogo foi colocado por eles, para nos avisar do que vem aí. Já disseram que, se eu sair andando em qualquer lugar, vão me pegar”, diz.
Há 15 dias, um carro conduzido por xavantes quase foi interceptado por três outros carros nas proximidades da localidade de Alô Brasil. “Por sorte, o motorista manobrou e conseguiu escapar. Mas é grande a ameaça”, diz.
As saídas de índios da área foram reduzidas ao mínimo possível. Foi articulada também uma rede de vigilância ao longo de todo o perímetro da aldeia. “Bandido entra em qualquer lugar, mas estamos atentos. Se alguém entrar aqui, vai ser problema dele”, afirma.
Apesar da precaução, os xavantes afirmam que estão “tranquilos” e que irão esperar “pacificados” o cumprimento da ordem judicial de desintrusão.
“Nós vamos ficar aqui na aldeia o tempo todo. Deixem os fazendeiros falar em ameaça e conflito. Hoje em dia, nossa força é o papel. É a caneta. Não temos culpa se eles é que estão perdendo na Justiça”, declara.
Sem ligação à rede de energia e com os geradores disponíveis queimados, é difícil para os xavantes ter acesso a notícias vindas da Justiça Federal em Cuiabá. As perguntas sobre o assunto permeiam toda a entrevista.
“Nós estamos neste pedaço da nossa terra há quase 10 anos. Hoje queremos tudo. Toda a área demarcada. Por isso estamos firmes, cobrando, para começar logo a retirada dos posseiros e dos fazendeiros”.
Mesmo após a desintrusão, a atual aldeia de Marãiwatsede continuará a ser a “sede”, afirma Paridzané, mas outros núcleos da etnia serão abertos para assegurar maior controle sobre a área.
Questionado sobre o que pretende fazer com a estrutura já erguida no Posto da Mata, o cacique diz não ter “interesse” em manter a configuração atual.
“Nós vamos tirar as telhas e alguma outra coisa, mas o resto vamos quebrar tudo. Senão o branco volta. Vamos quebrar tudo. Minha borduna está aí para isso: para quebrar parede.”

diariodecuiaba.

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