Intercâmbio entre povos Xavante promove troca de sementes e de conhecimentos tradicionais

Grupos indígenas Xavante de coletores de sementes florestais associados à Redes de Sementes do Xingu se reuniram no final do mês de abril para compartilhar experiências e conhecimentos.
CANARANA – Grupos de coletores de sementes florestais da aldeia Ripá, na Terra Indígena (T. I.) Pimentel Barboza, e da T. I. Marãiwatsédé, participaram de um intercâmbio no final do mês de abril com o objetivo de compartlhar experiências e conhecimentos sobre o manejo de sementes florestais comercializadas pela Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX), da qual os grupos fazem parte. Eles também partilharam conhecimentos tradicionais indígenas da cultura Xavante, ou a’uwe mreme, como gostam de se denominar, e promoveram troca de sementes.
O intercâmbio aconteceu entre os dias 24 e 27 de abril na aldeia Ripá, localizada no sopé da Serra do Roncador, município de Canarana-MT. “A área [da aldeia Ripá] é riquíssima em espécies nativas, apresentando grande potencial para coleta de sementes arbóreas dessa fitofisionomia”, diz o indigenista da OPAN (Operação Amazônia Nativa) Marco Tulio, parceiro da Rede de Sementes do Xingu e que atua na T. I. Marãiwatsédé.
Conforme um dos organizadores do intercâmbio, Alexandre Lemos, que realiza trabalhos voluntários na aldeia, a proposta de reunir dois povos Xavante para trocarem experiências e a feira de sementes, é algo pioneiro entre povos a’uwe. “E, dentro de todo potencial que o Cerrado oferece, o conhecimento tradicional sen-do compartilhado entre eles foi incrível”, complementa Alexandre, que também é colaborador da Rede.
Na abertura do evento o cacique José Guimarães Suméné deu as boas-vindas em forma de um canto em círculo. Na sequência, os realizadores do intercâmbio destacaram a preservação e o cultivo de sementes crioulas como forma de sustentabilidade alimentar e saúde para os povos indígenas. Em sua fala, Carolina Rewaptu, liderança dentro do grupo de coletoras da T.I. Marãiwatsédé, ressaltou a importância do intercâmbio como uma forma muito rica de troca de saberes, sendo apenas o início de uma troca muito maior entre os povos Xavante.
O evento também teve a presença muito especial da coletora de sementes Cleusa Nunes de Paula, do P.A. Macife em Bom Jesus do Araguaia. Ela foi uma peça chave para o entendimento do evento. Cleusa, que cresceu na T.I. Pimentel Barbosa e fala fluentemente a língua Xavante, contou um pouco da sua trajetória pela cultura a’uwe e sobre a valorização da alimentação tradicional, levantando os aspectos da saúde e de conservação ambiental que isso representa. “Comida de branco é fraca, comida Xavante é forte e dá saúde. Antigamente, nós colhíamos nossa comida, jogávamos os restos pelo ‘trieiro’ e nascia mais uma árvore. Agora, o povo come e joga embalagem, o que só cria mais lixo”, contou.
Uma das anciãs coletora da aldeia Ripá, Sebastiana Tsinhotsé’nhiwê, acredita que o trabalho das coletoras na Associação é o caminho certo para a preservação da cultura tradicional e, mesmo sendo uma das mais antigas coletoras da aldeia, ainda cultiva a roça, pois entende a importância da atividade como alternativa ao envolvimento dos jovens em trabalhos dentro da aldeia e não na cidade.
Outra atividade realizada no evento foi a tradução dos materiais da Rede de Sementes para a língua Xavante, para que esses materiais sejam melhor acessados pelos indígenas, uma demanda comum entre os a’uwe e uma forma de transmitir o conhecimento ancestral às próximas gerações. “O envolvimento de toda a comunidade, não só dos grupos coletores, foi fundamental neste processo. Ter os professores indígenas presentes, apoiando a tradução dos materiais, ajuda a construir uma educação escolar indígena diferenciada como eles merecem ter, integrando formação humana, escolar e cultural”, diz Alexandre Lemos.
No segundo dia, foi feita uma visita às roças tradicionais e coleta de batatas no Cerrado. A ida a campo foi de grande relevância para mostrar a necessidade de manter os alimentos tradicionais a’uwe, povo caracterizado pela prática de caça e coleta.
Os grupos ainda participaram do mapeamento das áreas de coleta, levantando onde estão as áreas estratégicas para coleta de sementes florestais situando no mapa referências como estradas, cursos d’água, aldeia e a sagrada Serra do Roncador. A partir dessa ilustração, levantou-se a lista potencial de sementes a serem coletadas nesse ano pelas mulheres da aldeia Ripá. Esse planejamento participativo da lista potencial auxilia na compreensão do funcionamento da ARSX pelas indígenas.
O evento foi finalizado pela feira de troca de sementes A’uwe. Entre as espécies trocadas, estavam diversos tipos de milho xavante, jenipapos, manivas de mandiocas, feijão, tubérculos, ervas medicinais, urucum e artesanatos.
Analisando o intercâmbio de forma geral, Marco Tulio ressaltou que “o protagonismo feminino na tomada de decisões e o maior grau de organização interna do grupo de coletoras de Marãiwatsédé ficaram bem evidenciados ao longo dos dias de troca de experiência, e os seus parentes da aldeia Ripá ficaram bastante impressionados e mobilizados diante da grande capacidade e experiência do grupo”.
O intercâmbio contou também com o apoio do ISA (Instituto Socioambiental) e a participação da consultora Sarah Domingues e o técnico Adryan Nascimento, ambos do ISA. (Por Sara Domingues – ISA).
Mulheres leem o livro Plante Árvores do ISA
Intercâmbio aconteceu no final do mês de abril
Sementes Crioulas

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