Posseiro de Suiá Missú defende ida de xavantes para parque estadual

Fazendeiros da área de litígio de Suiá Missú, demarcada como reserva indígena Maraiwatsede, defendem que tanto índios quanto brancos sairão ganhando caso o cacique Damião Paridzané e os xavantes liderados por ele aceitem a proposta do governo de Mato Grosso de levá-los para o Parque Estadual do Araguaia, evitando-se assim conflitos e o caos social.

“Com a permuta, todo mundo vai sair ganhando. Se fosse para o Estado propor alguma coisa ruim, nem nós estaríamos apoiando”, declarou o presidente da Associação dos Produtores da Gleba Suiá Missú (Aprosum), Renato Teodoro, no último sábado em entrevista exclusiva ao Olhar Direto.

O fazendeiro se refere à proposta, considerada inconstitucional pelo Ministério Público Federal (MPF), de se encerrar o conflito agrário pelas terras de Maraiwatsede (demarcada em 1998 sobre áreas remanescentes da antiga fazenda Suiá Missú) com a transferência dos xavantes do local para o Parque do Araguaia, criado pelo governo do Estado. A lei que autoriza a permuta com a União, aprovada pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso em junho do ano passado, é a de número 9.564.

Apoiados pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e pela União, há mais de vinte anos xavantes reivindicam a posse das terras alegando que são de sua tradicional ocupação, tese rechaçada pelos fazendeiros. O embate antropológico teve como conseqüência uma longa queda-de-braço judicial permeada por episódios de violência na região, típicos de conflitos agrários.

Porém, as últimas decisões da Justiça Federal determinam a retirada dos fazendeiros após plano de desintrusão a ser elaborado pela Funai num prazo de dez dias. Fazendeiros chegaram a bloquear por cerca de uma semana a rodovia federal BR-158, que interliga cidades da região, como forma de protesto contra os desdobramentos judiciais mais recentes. Os posseiros, na iminência da retirada, temem o emprego de força policial (a Justiça autorizou o uso da Força Nacional de Segurança e da Polícia Federal para cumprir a decisão) e o caos social resultante do despejo.

Apesar de estarem já buscando alternativas judiciais e administrativas para o conflito, eles e se mostram indignados diante da farta oferta de terras e recursos naturais à disposição dos xavantes no Parque Estadual oferecido pelo governo mato-grossense.

O presidente lembra que a terra oferecida pelo Estado é ainda mais extensa que Maraiwatsede: enquanto a reserva dispõe de aproximadamente 165 mil hectares, o Parque conta com 205 mil, cortados pelos rios Araguaia, das Mortes e Cristalino. Além disso, há nas terras cerca de 190 pequenos lagos, segundo o fazendeiro.

“É riquíssimo em pesca, caça, frutas. Nós levamos os índios lá na época da cheia, em fevereiro, e eles ficaram encantados. Ficamos de retornar com eles em julho para observarem a época da seca. Sem contar que o governador reafirmou na reunião que tivemos que se compromete a construir casas, escola e posto de saúde para eles”, argumentou o presidente. “Assim, as duas partes saem ganhando”.

Caos

Ele prevê que as famílias de produtores hoje assentadas em Maraiwatsede podem ser ver em situação desesperadora e de danos irreparáveis caso a Justiça não reveja a decisão pela retirada de uma verdadeira cidade (Posto da Mata, no meio da reserva). Ali, ele calcula, existem cerca de 600 propriedades rurais, com sete mil pessoas vivendo, trabalhando e produzindo, inclusive assentados da reforma agrária investindo em agricultura familiar. Todos, agora, em risco de cair na miséria.

“Onde é que vão jogar 800 alunos em ano letivo? E as 300 mil cabeças de gado da região? Falta aí um posicionamento claro. Não é com uma canetada que se resolve esse tipo de coisa. Ali há uma sociedade constituída”, defende.

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