Sustentabilidade abre caminho à certificação e ganhos extras

nunca foi tão citada entre os produtores rurais brasileiros. Governos, ambientalistas e fornecedores de insumos passaram a difundir o conceito, de diferentes perspectivas. E as discussões chegam com força ao meio rural, comprovou o dia de campo do Rally Ceagro/Expedição Safra realizado na última semana no Vale do Araguaia, em Mato Grosso.

Sem muita divagação, os agricultores interpretam a questão de maneira prática: “Ser sustentável é aproveitar ao máximo a área, com várias culturas no mesmo ano, para chegar na viabilidade sem precisar o cultivo”, disse Anderson Matte, que cultiva 475 hectares em Canarana (MT).

Hugo Harada/Gazeta do Povo

Hugo Harada/Gazeta do Povo / Vanessa Nardy: garantia de mercado

Vanessa Nardy: garantia de mercado

Números

34 mil toneladas de embalagens foram recolhidas no país em 2011, considerando todas as culturas. Mato Grosso foi líder com 8,8 mil toneladas e quer chegar a 9 mil esse ano.

770 gramas de embalagem de agrotóxicos por hectare de soja são geradas por safra, conforme estimativa do sistema de recolhimento em atuação em todo o país.

No entanto, a sustentabilidade vai além, mesmo quando o conceito é abordado de forma simplificada, disse Vanessa Nardy, consultora da Pri­­ce­wa­­terhouseCoopers que mi­­nistrou palestra aos 80 participantes do evento. “É preciso viabilizar a produção ao longo do tempo seguindo as legislações trabalhista e a ambiental, e também garantindo mercado e boa performance financeira”, defendeu.

Para isso, uma das saída é a certificação das propriedades, defende. As mudanças necessárias para que as fazendas brasileiras sejam certificadas ante os parâmetros do sistema RTRS (Round Table on Responsible Soy), por exemplo, são simples, como a construção de um novo tanque para o diesel que abastece a fazenda, citou o engenheiro agrícola Ismael Trevisan, especialista em meio ambiente e segurança do trabalho.

“Em termos ambientais, trabalhistas e sociais, a grande maioria das fazendas brasileiras trabalha corretamente”, diz. Em sua avaliação, no entanto, é preciso sistematizar a prática e divulgá-la.

O custo da certificação internacional é de menos de R$ 1 por tonelada de produto exportado no caso do RTRS, conforme os especialistas. Consultorias que atuam no Brasil começam a oferecer o serviço de orientação aos interessados em trabalhar com selos reconhecidos internacionalmente.

Em Mato Grosso, a experiência da Soja Plus vem sendo observada com curiosidade pelos agricultores, que ainda consideram as estratégias do gênero uma tática mais apropriada para produtores gigantes. Eles mostram-se receptivos às orientações oferecidas gratuitamente pelo Soja Plus, chamado também de Programa de Gestão Econômica e Social da Soja Brasileira.

Sem custos extras

Segundo Trevisan, a certificação e a observação de parâmetros de sustentabilidade não implicam necessariamente em custos extras. Ele afirma que as adequações podem inclusive reduzir os gastos. Um exemplo disso é a adoção da agricultura de precisão, em que o produtor faz um Raio X de sua propriedade com análise de solo e passa a aplicar somente os insumos necessários em cada ponto da lavoura. Em alguns anos, é possível reduzir o uso de fertilizantes nas áreas mais bem providas.

No sistema de precisão, a aplicação reforçada de adubo num ano de preços viáveis acaba funcionando como uma poupança, disse o consultor Marcelo Volf, da Dalcin Planejamento. No ano seguinte, se os preços dos agroquímicos sobem, torna-se possível diminuir o investimento em fertilizantes, o que contribui para a sustentabilidade do negócio, apontou. De acordo com sua análise, pelo controle racional do solo e da produção, a tecnologia oferece informações que facilitam a certificação. “A sustentabilidade não tem espaço se o produtor não estiver ganhando dinheiro na produção”, argumenta.

Esse ambiente de produção sustentável não depende só do produtor, disse Paulo Airton Schaedler, que detém 420 hectares de lavouras em Água Boa (MT). “A viabilidade depende de uma política nacional de preço e de investimento em infraestrutura. Hoje não temos segurança e, no escoamento, enfrentamos centenas de quilômetros de asfalto esburacado. Ainda é cada um por si e Deus por todos”, argumentou.

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