TREINAMENTO EM SERVIÇO EM CANARANA E BARRA DO GARÇAS, MT: MUITO SERVIÇO A SE FAZER, VISANDO A ELIMINAÇÃO DA HANSENÍASE

TREINAMENTO EM SERVIÇO EM CANARANA E BARRA DO GARÇAS – MT
A região de Canarana – MT, portal do Parque Indígena do Xingu, com cerca de 20 mil habitantes, apresenta alta prevalência de hanseníase há muitos anos. São cerca de 30 casos por ano, ou 150/100.000 habitantes, na média dos últimos 10 anos, sendo que 7% dos casos foram diagnosticados em menores de 15 anos. Próxima aos estados de Goiás e Tocantins, o município carece de acesso por rodovias pavimentadas de qualidade, o que diminui muito o desenvolvimento da região. Colonizada por brasileiros da região sul, notadamente gaúchos, é uma cidade acolhedora que lembra uma parte do interior do estado do Rio Grande do Sul, com exceção da presença indígena muito intensa.

Por outro lado, a cidade de Barra do Garças, com quase 60 mil habitantes, localizada na divisa com Goiás, é área de intenso movimento de caminhões, e polo regional, atendendo diversas cidades do entorno. O atendimento de pacientes com hanseníase nesta localidade é atualmente centralizado, e realizado por uma única médica, sendo que o Programa de Saúde da Família (PSF) não está inserido nesta atividade. Houve queda na taxa de detecção, de 124 casos por ano, em média (2001-2005), para 54 casos por ano, em média (2007-2011), associada à alta porcentagem de casos multibacilares com grau avançado de incapacidade no momento do diagnóstico (7,6%, em 2007), e com detecção média em menores de 15 anos mantida próxima de 10%. Confirmando a situação puramente operacional, a queda da detecção de quase 76%, verificada em 2011, em relação a 2005, não se acompanhou da redução da porcentagem de casos em menores de 15 anos, nem de pacientes com grau 2 de incapacidade, cuja coorte de incapacidades físicas na cura ficou abaixo de 75%, nos últimos 3 anos.

No intuito de se descentralizar o atendimento, e atualizar os profissionais de saúde em Hansenologia, as Coordenações dos Programas de Controle de Hanseníase, Estadual e dos dois municípios, com o apoio da DAHW e do Instituto Lauro de Souza Lima de Bauru, SP, organizaram mais um treinamento em serviço nestas duas localidades.

Em Canarana, na aula teórica, participaram 89 profissionais de saúde, sendo 7 médicos e 12 enfermeiros. As cidades representadas foram: Gaúcha do Norte, Nova Nazaré, Água Boa, Querência, Ribeirão Cascalheira, além da cidade sede. Foi aplicado um pré-teste, para avaliação do conhecimento prévio sobre a doença. A média de acertos dos profissionais foi: Médicos = 8,4, Enfermeiros = 7,4 e outros profissionais = 7,7. Chamou a atenção o fato de que 60% dos médicos e 43% dos enfermeiros não sabiam que a doença era endêmica no Brasil, mesmo nesta área hiperendêmica, e 80% dos médicos não sabiam como tratar neurite reacional. Entre os enfermeiros, 71% desconheciam a forma virchowiana, não sabiam a diferença entre recidiva e reação e achavam que a coleta de baciloscopia poderia causar contaminação por via inalatória; 43% achavam que não era necessária a incisão da epiderme para coleta de material para baciloscopia.

Em Barra do Garças, participaram 30 profissionais de saúde, sendo que dos 15 médicos de PSF convidados e convocados, apenas 3 participaram de todas as atividades, ao contrário dos profissionais de enfermagem, reabilitação e laboratório, que estiveram presentes, na sua maioria, em todas as atividades. Ao final das atividades, foi aplicado um pós-teste aos profissionais presentes, para efeito de avaliação do treinamento. A média dos profissionais de saúde, por categoria, foi: Médicos = 9,1, Enfermeiros = 8,5 e outros profissionais = 7,5.

No total, em cinco dias de treinamento, 89 pessoas foram avaliadas, e foram detectados 9 casos novos, 2 recidivas, e 6 mudanças de esquema terapêutico/retratamentos, além de correção de falhas no manuseio de neurites e neuropatias. Foram realizadas coleta e coloração de esfregaço dérmico (baciloscopia), e demonstração de técnica de biópsia com punch. Em uma só família, pai, filha e genro foram diagnosticados por ocasião do treinamento. Causou comoção o caso de um adolescente de 19 anos, com hanseníase virchowiana, soldado do exército em Barra do Garças, que estava com eritema nodoso hansênico, tomando 60mg de prednisona, e o médico da guarnição não aceitou sua liberação para tratamento da reação. Este fato é muito grave, uma vez que este médico militar desconhecia que, pelo regulamento militar (IR 70-12), hanseníase é doença que incapacita para o serviço militar, e pior: o soldado não foi sequer diagnosticado durante sua convocação.

O esforço nacional para eliminar a doença até 2015, meta do Ministério da Saúde, só poderá se concretizar após o acesso ao diagnóstico e ao tratamento ser totalmente descentralizado. Para isso, além de capacitação contínua dos profissionais de saúde que já estão em campo, estes deverão atuar de forma conjunta, cada um fazendo sua parte (suspeição, encaminhamento, diagnóstico e tratamento). O Governo Federal, por meio do Ministério da Educação e Cultura, deverá colocar a Hansenologia como matéria obrigatória nos cursos de Graduação em Saúde nas Universidades, com carga horária maior, e com atividades práticas, principalmente em Unidades Básicas de Saúde, visando o contato com a realidade do nosso SUS. O Conselho Federal de Medicina (CFM), por meio de suas unidades regionais (CRMs), deverá também cobrar do médico para que este não se omita de prestar atendimento ao paciente de hanseníase nas Unidades Básicas de Saúde, já que delegar o ato médico (diagnóstico e tratamento) ao pessoal de enfermagem, assim como se omitir, são infrações éticas. Esta negligência e omissão, fato comum por parte do médico de muitas unidades básicas, em aprender sobre a doença e assumir os pacientes de hanseníase de sua área, é um dos principais entraves no Programa de Eliminação da Hanseníase no Brasil, uma vez que estes pacientes são, em sua maioria, social e culturalmente desfavorecidos, o que gera dificuldades no acesso às referências e, por conseguinte, impossibilidade de diagnóstico precoce e exame de contatos.

Jaison A. Barreto

Cícero Fraga Melo

Lenir A. do Amaral

Auxiliadora M. G. Dantas

Nágella T. B. Sousa

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